segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Cristina Kirchner ganha e faz história

Desde as primeiras horas da manhã deste domingo era previsível que o dia de hoje entraria para a história da Argentina. Nas ruas, as pessoas andavam com sorriso no rosto. Nos locais de votação, todos demonstravam prazer e satisfação de uma forma ou de outra.

Pela manhã acompanhei pela televisão os candidatos votando. Cristina, por exemplo, estava em Río Gallegos, no sul. Após ouvir as declarações da presidenta, acompanhei um amigo na votação. No caminho, ele parou em uma padaria para comprar medialunas (um pão doce que eles comem todos os dias no café da manhã) para levar para os mesários. Na escola onde ele vota, no bairro de Constitución, movimento tranquilo, sem filas.

Depois, acompanhei um pouco a massiva cobertura das televisões locais. Destaque para as redes sociais, amplamente exploradas por jornais, rádios e televisões e também pelos candidatos. O Twitter, sobretudo.

Caminhei pela Feria de San Telmo até a Plaza de Mayo. Quando cheguei, por volta de 18h, já havia muita gente e começava a se armar a festa. Dali, fui ao Hotel Intercontinental, onde Cristina chegaria logo depois. Em uma entrada secundária aguardei algumas horas enquanto conversava com algumas pessoas. "Ganhou Cristina, ganhamos todos", dizia um senhor.

Estela de Carlotto, uma senhora frágil, chegou e causou alvoroço entre as cerca de cem pessoas que estavam ali. Ela fundou o movimento conhecido mundialmente como Abuelas y Madres de la Plaza de Mayo. São mães e avós de desaparecidos políticos que exigem saber o paradeiro de seus parentes. O movimento apóia CFK abertamente.

Depois que Cristina passou, sorridente e abanando para todos, fui para o meu QG. No caminho ainda passei pelo comitê do marxista Jorge Altamira, penúltimo colocado, e de Alberto Wifi Rodríguez Saá. Ambos estavam quase vazios.

Os primeiros resultados oficiais só seriam divulgados a partir das 9h da noite, mesmo assim a vitória de Cristina já era anunciada por todas as emissoras de televisão e jornais. Os veículos se baseavam nas pesquisas de boca de urna divulgadas logo após o fechamento das mesas. Cristina estava reeleita "com mais de 55% dos votos". Nas ruas, gente com bandeiras, adesivos, camisetas e cartazes marchava a passos largos rumo à Plaza de Mayo.

Aos poucos (e antes da divulgação dos resultados oficiais) os candidatos a presidente começavam a admitir a derrota. A primeira foi a lanterninha Elisa Carrió: "Repetimos a pior eleição da nossa história junto com as primárias". A piada que ouvi na rua é de que ela "descarrió". Também pudera: nas últimas eleições ela foi a segunda colocada e, agora, foi vencida pelos votos em branco!

O ex-presidente Eduardo Duhalde foi o seguinte. Agradeceu, agradeceu e agradeceu. Também disse que estará presente nas próximas eleições. Sinceramente... Duhalde foi o grande perdedor desse pleito. Nas primárias teve 12% e agora ficou com pouco mais de 5%. Se eu fosse ele largava mão desse negócio de política...

Depois de Duhalde, Ricardo Alfonsín falou. Não só agradeceu, como parabenizou a presidenta reeleita e avisou: "Vamos brigar pelos interesses populares".

Jorge Altamira, que eu costumo chamar de "Rui Pimenta argentino", falou alguma coisa na sequência. Não sei o que ele disse, pois o som estava terrível e não consegui entender uma palavra.

Neste momento a Plaza de Mayo já estava tomada. Uma barreira foi colocada, o que impedia que a população se aproximasse da Casa Rosada. Mesmo assim, havia muita festa.

Passava um pouco das 21h, horário prometido, quando o ministro de Interior (justiça) passou a primeira parcial. Pouco mais de 15% das urnas estavam apuradas e Cristina Kirchner já tinha 53% dos votos. Mesmo assim, o ministro afirmou: "A presidenta Cristina Fernández de Kirchner foi reeleita."

Fui acompanhando aos poucos a apuração e vendo que em algumas províncias CFK beirava a unanimidade. Em Santiago del Estero, por exemplo, estava com 82% dos votos. Essa mulher é um fenômeno popular. Impressionante.

E o fenômeno subiu ao palco montado no Hotel Intercontinental por volta das 21h30. Ela tentava começar o discurso, mas era impedida pela plateia que cantava músicas como "Yo soy argentino! Soy soldado del pinguino!". Quando finalmente começou a falar, uma surpresa: Cristina Kirchner agradeceu a todos e, a primeira pessoa citada por ela foi a presidenta brasileira Dilma Rousseff: "A companheira Dilma me disse palavras muito doces..." contou CFK. Logos depois, citou todos os presidentes sulamericanos. Quando falou o nome do chileno Sebastián Piñera a plateia chiou. Ela riu e brincou: "Vocês são terríveis...".

Quando citou o prefeito eleito de Buenos Aires, Mauricio Macri, as vaias abafaram a voz da presidenta. Imediatamente, ela ficou séria e deu um puxão de orelhas no público: "Não façam isso! Vou me irritar!". A plateia, claro, obedeceu.

A partir de então, Cristina começou a citar o marido Néstor Kirchner. Se referiu a "Él" dezenas de vezes. "Sin Él, sin su valentía y coraje, hubiera sido imposible llegar hasta aquí."

"Fui a primeira mulher eleita presidenta a agora sou a primeira mulher reeleita presidenta. Não quero mais nada."

"Contem comigo para seguir aprofundando um projeto de país que ajude a melhorar a vida de 40 milhões de argentinos!"

"O importante é conquistar um lugar no coração do nosso povo."

"Quando tudo está perdido é o melhor momento para lutar!"

Após esse discurso, Cristina foi até a Plaza de Mayo, onde milhares de kirchneristas comemoravam a vitória. Depois de falar mais uma vez, a presidenda animou o palco dançando descontroladamente. Ela foi embora, mas a festa continou. Ou seja, nesta segunda-feira ninguém trabalha na Argentina...