quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Por que argentinos são fúnebres?

Não é preciso ser um especialista na história da Argentina para perceber que nesse país o corpo dos seus heróis é cultuado como um troféu. Esta semana, por exemplo, o corpo do ex-presidente Néstor Kirchner será transladado do jazigo onde está sepultado, em Río Galegos, para um mausoléu a cerca de 200 metros. A inauguração do manumento terá a presença da presidenta Cristina Kirchner e de outros chefes de estado.

Eva Perón, a chefa espiritual da Nação, também é um bom exemplo desse gosto por funerais. O velório da segunda esposa do General Perón durou vários dias e atraiu milhares de argentinos. Depois disso, Evita não descansou em paz. O corpo foi sequestrado pelos militares que, em conjunto com a Igreja Católica, sepultaram-no na Itália com um nome falso. Antes, porém, dizem que os restos de Eva passaram por vários locais, inclusive casas de aliados dos milicos. Só anos mais tarde os restos de Eva Perón voltaram para Buenos Aires e hoje estão no jazigo da Família Duarte, no Cemitério da Recoleta.

O corpo do general Juan Domingo Perón também foi motivo de conflitos. Depois de ser velado no Congresso Nacional, Perón foi sepultado na Quinta de Olivos. Neste local, a então presidente Isabelita Perón, terceira mulher do general, depositou os restos de Evita recém chegados da Europa. Quando Isabelita foi deposta pelos militares, o corpo de Evita foi entregue para a família e o de Perón, sepultado no Cemitério da Chacarita. No final da década de 80 Perón foi desenterrado e as mãos do cadáver foram cortadas. Ainda não se sabe ao certo o motivo dessa mutilação, mas existem três versões: a primeira, que uma vingança da maçonaria; a segunda, que suas digitais seriam usadas para abrir cofres na Suíça; e a terceira, que os militares fizeram isso em resposta a uma afirmação do ex-presidente de que cortaria as próprias mãos antes de pedir um empréstimo do FMI. Em 2006, o féretro maneta do general foi transladado mais uma vez, agora para a quinta de San Vicente, onde está até hoje.

O corpo de outro herói sulamericano, o General San Martín, também passou por uma verdadeira Via Crúsis. O homem apontado como responsável pelas independências de Argentina, Perú e Chile hoje descansa em uma nave lateral da Catedral de Buenos Aires mesmo tendo sido maçom, fato para mim inexplicável. Mas até chegar ali, foram longos anos. Primeiramente foi enterrado na França, onde morreu e onde vivia sua filha que queria o corpo do pai por perto. Em 1880 os restos de San Martín foram repatriados e depositados na Catedral. Sobre um maçom sepultado em uma igreja Católica, os historiadores divergem nas versões. O fato é que foi a prefeitura de Buenos Aires que negociou com a Igreja e a autorização foi dada, segundo o pesquisador Enrique Mayochi, porque seria uma honra guardar os restos do Libertador.

Uma visita ao Cemitério da Recoleta é parada obrigatória para quem está em Buenos Aires de passagem. Lá estão enterrados militares, pensadores e políticos argentinos. E é neste local que se pode ter uma ideia desse gosto fúnebre que aponto. É possível, por exemplo, ver os caxiões dentro de quase todos os mausoléus.

Não sei e não ouvi até agora uma explicação convicente sobre essa adoração dos argentinos pelos cadáveres de seus heróis. Considerem-se interrogados.