quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Torturadores argentinos vão para o xilindró

Esta semana tem sido muito movimentada politicamente na Argentina. Depois do triunfo de Cristina Kirchner no domingo passado, o país assistou na quarta-feira a condenção de militares torturadores e, nesta quinta, lembra o primeiro ano sem o ex-presidente Néstor Kirchner.

Na quarta-feira, a justiça argentina anunciou as penas para 18 militares acusados de crimes contra os direitos humanos na última ditadura, que começou após a queda de Isabelita Perón. A argentina sofreu com três golpes de estado e, consequentemente, foi governada três vezes por juntas militares. No entanto, essa última é consderada a mais agressiva. Estimam cerca de 30 mil desaparecidos políticos (no Brasil não chegam a mil) e isso motivou o nascimento do movimento das mães e avós da Plaza de Mayo.

O Retiro estava lotado de gente esperando que a justiça fosse feita. E eles não saíram

de lá decepcionados. Dos 18 acusados, somente dois foram absolvidos. Quatro foram condenados a penas que vão de 18 a 25 anos de prisão e 12 deles vão cumprir a pena máxima estabelecidade pela justiça. Ao anunciar as condenações desses últimos, os juízes utilizaram o termo "prisão perpétua", que se propagou nos meio de comunicação. No entanto, não é bem assim. Na Argentina a condenação máxima é de 25 anos. Logo, essa pena perpétua consiste nesse tempo de detenção. A diferença é que eles só poderão pedir progressão da pena depois de cumprir, no mínimo, 20 anos.
Todos os milcios condenados faziam parte da ESMA, a Escola de Mecânica Armada, que foi o braço mais terrível da ditadura. Na sede da ESMA aconteceram a maior parte das torturas e assassinatos de militantes de esquerda. Por mais que o sentimento de justiça tenha tomado conta dos argentinos com a condenação desses 16, ainda faltam outros 70 para serem julgados.

Alguns dos militares condenados na quarta-feira participaram do assassinato do escritor Rodolfo Walsh. Por um acaso do destino, vi no cinema nesta mesma semana o filme de animação "Eva de la Argentina". A trama é narrada por este escritor, que conta a investigação feita para des
vendar os mistérios sobre o paradeiro do corpo de Eva Perón.

O milico mais famoso que foi condenado é conhecido como o
"anjo loiro" ou "anjo da morte". Trata-se de Alfredo Astiz (foto), um símbolo das barbaridades comentidas na Argentina durante a ditadura. Ele é responsável, por exemplo, pelo desaparecimento de duas freiras francesas que atuavam em entidades de defesa dos direitos humanos por aqui. Astiz foi espião, se infiltrou nessas organizações, torturou e matou. Quando a sentença dele foi anunciada, o milico ainda teve a capacidade de esboçar um sorriso de leve... Quem ri por último, ri vendo o sol nascer quadrado.

A condenação desses torturadores é uma grande vitória dos movimentos sociais, principalmente das Madres y Abuelas de la Plaza de Mayo. Estela de Carlotto, um das fundadoras da organização, estava sentada na primeira fila e assistiu todo o julgamento a poucos metros dos acusados.

Tudo isso só foi possível graças a um homem: Néstor Kirchner. A primeira coisa que Kirchner fez ao assumir em 2003 foi suspendeu os perdões que Menem havia dado aos torturadores. Com isso, foi possível que eles fossem julgados pela justiça comum.

É impossível ver a justiça sendo feita na Argentina e não lembrar do Brasil. Enquanto por aqui esses criminosos estão sendo punidos pelas barbaridades que cometeram, no nosso país tupiniquim eles estão livres e volta e meia aparecem em canais de TV dando entrevistas como "guardiões de grandes segredos". Hoje, felizmente, temos uma presidenta de coragem e que sentiu na pele os efeitos da ditadura. No entanto, pouco tem feito para passar a história do nosso país a limpo. Penso que se Dilma não tomar uma atitude mais audaciosa nesse sentido, podemos perder as esperanças de ver os milicos brasileiros pagando pelos crimes que cometeram.