terça-feira, 24 de abril de 2012

Com um pouco de Lula e Collor, Henrique Capriles quer ser presidente da Venezuela

Candidato único da oposição implantou projetos sociais inspirados no Governo Lula, evita críticas mais duras a Chávez e deve ter dificuldades para legitimar o discurso em favor dos mais pobres.
Jovem, prodígio, determinado, simpático e poderoso. Esses adjetivos podem resumir as principais características do candidato da oposição na Venezuela, Henrique Capriles, e devem ser os principais argumentos da campanha para convencer o eleitor venezuelano que o governo Chávez é coisa do passado.


Apesar da união da oposição, que realizou eleições prévias para a escolha de um único candidato, as pesquisas apontam que, ao menos por enquanto, a missão do jovem governador de Miranda é muito difícil. No último levantamento ele aparece 30 pontos atrás de Hugo Chávez. O atual presidente tem 56% das intenções de voto contra 26% de Capriles.

O jovem caraqueño parece estar acostumado a enfrentar desafios como esse, apesar da recente carreira política. Em 1999, mesmo ano em que Chávez ascendeu à presidência, o jovem Henrique Capriles, então com 25 anos, não só foi eleito deputado, como assumiu a presidência da Câmara. No ano seguinte, ganhou a eleição para prefeito da cidade de Baruta, na província de Miranda, que é governada por ele desde 2008.


Diferente de outros líderes políticos que militaram, pegaram em armas ou mesmo dirigiram grêmios estudantis, Capriles se formou em direito e exerceu a profissão até entrar na política. A biografia do candidato no site oficial da coligação de 7 partidos denominada “Hay un camino” não cita experiências anteriores ao cargo de deputado.

Henrique Capriles fundou o Primero Justicia há 12 anos e continua sendo o principal líder desse partido que é definido como “centro humanista”. Se atualmente ele é o grande nome da oposição venezuelana, há 13 anos era apenas um advogado rico determinado a conquistar o poder.

Entre Lula e Collor
Como governador da província de Miranda, Capriles criou programas sociais para beneficiar famílias de baixa renda. Batizar o projeto contra a fome de “Plan Hambre Cero” (Plano Fome Zero) e o projeto voltado para moradia de “Mi Vivienda” (Minha Casa) não foi uma ideia inédita, mas as ações beneficiaram cerca de 120 mil moradores do principal estado venezuelano. Os planos sociais que Capriles apresentará durante a campanha são muito semelhantes aos implantados no Brasil pelo ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, de quem o venezuelano já confessou que é admirador.

Convencer o eleitor de que Capriles tem legitimidade para fazer esse discurso em favor dos mais pobres será um dos maiores desafios da campanha na opinião do jornalista e doutor em ciência política Maurício Santoro. “Ele lembra, até de maneira perturbadora, o Collor no Brasil”, assinala. Para Santoro, a imagem jovial do “caçador de marajás venezuelano” não é o ponto que mais se assemelha ao ex-presidente Fernando Collor de Mello. “A principal dificuldade de Capriles será conciliar o discurso social com a sua própria história de vida. Ele é um milionário que nunca teve dificuldades na vida, ao contrário de outros líderes”, lembra Santoro.

Filho de judeus que fugiram da perseguição nazista, Henrique Capriles Radonski tem uma família poderosa. A Cadena Capriles é um dos maiores grupos de comunicação do país. Entre suas empresas estão revistas, portais de notícias, jornais esportivos e o jornal de maior circulação da Venezuela. Todo esse poder midiático é comandado por Miguel Ángel Capriles López, primo do candidato a presidência.

Quando os rostos de Hugo Chávez, agora ainda maltratado por um câncer, e do jovem Henrique Capriles forem colocados lado a lado em cartazes nas ruas ou mesmo na televisão, somente a discrepância entre as duas figuras já renderá assunto para dúzias de conversas de bar. Chávez, apesar dos 58 anos, é presidente há mais de dez e o cansaço que a função exige não perdoa. Capriles, por sua vez, é um jovem sorridente que costuma circular com roupas informais, usa boné e provoca suspiros. Ele entrará para o time dos quarentões no dia 11 de julho durante a campanha eleitoral, coincidentemente, só 17 dias antes do aniversário de Hugo Chávez.

Para Maurício Santoro, que também é professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio de Janeiro, a principal vantagem de Capriles é não estar ligado a nenhum dos dois grupos políticos que comandavam a Venezuela antes das crises econômica e política do final dos anos 80.


Oficialmente a campanha eleitoral ainda não começou, mas as prévias da oposição e os discursos cada vez mais agressivos de Chávez tornaram o assunto latente. Tanto, que Henrique Capriles já é alvo de críticas pesadas divulgadas até pela televisão pública do país. Alguns desses ataques, mesmo que de maneira discreta, desandam para o lado do preconceito. Por ser de origem judia, Capriles já foi acusado de querer implantar a política de Israel para a Venezuela e até dúvidas sobre a sua sexualidade foram usadas como munição do canhão chavista.