terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A paulada de Cristina no Clarín


Em meio à confusão que virou a aplicação ou não da chamada Lei da Mídia, na Argentina, a presidenta Cristina Kirchner participou, na noite de domingo, da festa popular para comemorar o Dia da Democracia (em 10 de dezembro de 83 acabava a última ditadura) e dos Direitos Humanos. Na Praça de Maio, milhares se reuniram para cantar ao som de Fito Páez, Charlie García e outros e, no fim, ouvir o discurso da mandatária. Aliás, Cristina não falava na lendária praça desde que ganhou a reeleição, em outubro do ano passado.

Antes do discurso, um vídeo de mais de 20 minutos preparado pela Presidência da República contando a “história democrática da Argentina” foi exibido. Nele, a história recente do país foi passada a limpo na versão governista. Néstor Kirchner salvou o país, tirou a Argentina do buraco e Cristina continuou o projeto.

Cristina dedicou boa parte do discurso para lembrar que Néstor “reformou” a Corte Suprema da Argentina usando um método democrático, segundo ela. A mesma Corte iria decidir, no dia seguinte, se suspendia o recurso que o grupo Clarín conseguiu para adiar a aplicação da Lei da Mídia. Se a lei fosse aplicada, o conglomerado teria que fechar várias de suas emissoras de rádio e TV. Nas entrelinhas, a presidenta cobrou dos magistrados do STF argentino um pouquinho de gratidão. Não adiantou. Nesta segunda-feira, a Corte manteve o recurso dado ao Clarín por um juiz de primeira instância.

A presidenta também aproveitou a sua 23ª cadeia nacional de rádio e televisão no ano para atacar ferozmente o Clarín. “Houve um tempo que diziam que bastavam quatro capas de um determinado jornal e caía um governo”, disse. Ela também fez referências claras ao apoio do Clarín ao golpe militar pós-morte de Perón. Disse, em alto e bom som, que o grupo Clarín se beneficiou com os governos miliares que sucederam Isabelita Perón (a segunda mulher do general que fundou o peronismo e que, após a morte dele, abriu as portas para os milicos).

O que era para ser uma festa para exaltar a democracia virou um grande ato de apoio ao governo atual. Não seria errado, se não fosse transmitido em cadeia nacional. Cristina exagera, sem dúvidas. Está cada vez mais próxima do jeitinho Chávez de governar.

Como disse um amigo no dia do discurso, não parece buena onda qualquer grupo político apoderar-se da democracia como bandeira partidária.