domingo, 9 de dezembro de 2012

Hugo Chávez anuncia volta do câncer e admite que pode não assumir terceiro mandato


Era pouco antes das 22h em Caracas quando o presidente Hugo Chávez finalmente reapareceu. Em rede nacional de televisão, o líder da revolução bolivariana estava assustado. A notícia que estava por vir não era nada boa. Após mais de 20 dias em Havana, ele reaparecia para, enfim, das explicações sobre o sumiço. O ainda mal explicado câncer que, no final do primeiro semestre deste ano colocou em xeque a sua candidatura nas eleições presidenciais, voltou e, a julgar pelo tom forte de seu pronunciamento, com força total.

Ele mesmo colocou em dúvida várias vezes se terá condições de assumir, no próximo dia 6 de janeiro, o terceiro mandato para o qual foi eleito. Só isso já é um indicador de que a situação é realmente grave. Antes, durante o primeiro tratamento, Chávez nunca admitiu sequer a possibilidade de ser vencido pela doença. Agora, no entanto, não só externou a dúvida, como fez um chamado ao povo venezuelano para que eleja o vice, Nicolás Maduro, caso ele não possa seguir na presidência.

A preocupação se justifica: se ele não tiver condições de tomar posse, a Constituição manda que novas eleições presidenciais sejam convocadas. Em outubro, ele venceu Henrique Capriles por uma diferença pequena. Em um eventual novo pleito, que chance terá o seu sucessor que nunca teve espaço para demonstrar liderança frente um mandatário onipresente?

O fato é que a urgência é grande. Chávez passou mais de 20 dias em Havana e a única explicação dada pelo governo é que ele estava se submetendo a exames. No mesmo dia que retornou ao seu país, anuncia que precisa sair em disparada no dia seguinte. Neste domingo, Chávez volta a Havana para, segundo ele, se submeter à outra operação para retirada de novos tumores. Em que parte do corpo? Não se sabe. Ele não disse, mas a urgência leva a crer que a situação é bem mais grave.

Opositores já dizem que a cirurgia não está confirmada e que os médicos cubanos ainda irão avaliar se é plausível realizá-la. Quem já teve a infelicidade de acompanhar um tratamento contra qualquer câncer de algum amigo ou familiar sabe que, quando essa dúvida existe, o caso pode ser irreversível.

Em se tratando de Hugo Chávez, sabemos que muita coisa foi omitida. Ele nunca tratou abertamente o assunto, nunca explicou exatamente que tipo de câncer enfrenta e sempre fez discursos vagos buscando tranquilizar seus eleitores. Era véspera de eleições e o então candidato precisava estar forte. Agora é diferente. A doença ameaça seriamente o seu terceiro mandato.

Outra possibilidade que temos que avaliar é de Chávez estar usando o tratamento para gerar comoção. É possível, mas pouco provável. Ele está colocando em risco a sua continuidade no governo, algo que, para muitos, era uma ideia fixa de um “ditador” que pretendia se perpetrar no poder para sempre. Por que motivo ele desistiria se a situação não fosse grave?

Na prática, o que o comandante fez na noite deste sábado foi pedir afastamento da presidência e, imediatamente, nomear o sucessor. Algo que ele vinha adiando há muito tempo. Para se licenciar, Chávez precisa da autorização do legislativo. A urgência é tanta que os deputados farão uma sessão extraordinária neste domingo para aprovar a viagem do presidente.

Em certo momento do pronunciamento – que durou pouco mais de meia hora – Chávez parecia emocionado. Seus ministros, por outro lado, não esconderam as expressões de surpresa, pavor, dúvida, emoção, tristeza... Ao lado, o vice-presidente Nicolás Maduro ouvia as palavras do presidente e concordava com a cabeça. Chávez, explicitamente, pediu votos para Maduro. Disse que ele é a garantia de continuidade da revolução bolivariana.

Apesar da situação de emergência, as ordens foram claras: respeitar a Constituição e a democracia. Ouvir o presidente chamado de “ditador” admitir a possibilidade de que novas eleições sejam convocadas é um tapa na cara dos que usam esse argumento. Resta esperar para ver se a democracia será, de fato, respeitada.

Nicolás Maduro, o novo presidente interino – por assim dizer – da Venezuela, já era um dos nomes mais citados quando se falava na necessidade de um sucessor. Ele é o vice, sucessor natural. Este é o primeiro indicativo de respeito à democracia e à ordem correta das coisas. Durante as eleições, opositores chegaram a dizer que Chávez cogitava passar o poder para o próprio irmão.