quinta-feira, 4 de abril de 2013

Microfones abertos da América Latina

Pepe Mujica, presidente do Uruguai, é reconhecido por ser um político sem frescuras, espécie rara no meio. Nesta quinta-feira, quando esperava o início de uma entrevista coletiva ao lado do prefeito da cidade de Florida, no interior do país, foi traído por um microfone aberto. Ele fazia piadas com o colega falando sobre as relações de tapas e beijos que o Uruguai mantém com a Argentina quando se referiu à presidente Cristina Kirchner de forma, digamos, pouco politicamente correta. “Essa velha é pior que o vesgo”, disse Mujica, aos risos, em referência ao ex-presidente Néstor Kirchner, morto em 2010, que era estrábico. “O vesgo era mais político. Essa é teimosa”, completou.

A frase imediatamente ganhou as manchetes dos principais jornais dos dois países e uma nova polêmica estava instaurada. No passado, Mujica já tinha feito declarações polêmicas parecidas, como quando chamou os argentinos de burros. Ao perceber a gafe, tentou se explicar dizendo que não estava falando da Argentina, mas sim de Lula e do Brasil. Não colou. Até porque, na sequência, ele debochou do presente que Cristina levou para o recém-eleito papa Francisco. “A um Papa argentino que viveu 77 anos foi ensinar o que era um mate, uma garrafa térmica”, completou, rindo.

Mais tarde, Pepe disse que não ia dar bola para a repercussão e que não pretendia “percorrer o mundo dando explicações”. Só que o governo argentino não reagiu da mesma forma. Em carta enviada à embaixada uruguaia em Buenos Aires, o governo expressa mal-estar pela declaração e critica a atitude de Mujica. “A República Argentina considera inaceitável que comentários que denigrem e ofendem a memória e a honra de uma pessoa falecida, que não pode responder nem se defender, tenham sido feitos, particularmente, por alguém a quem o Dr. Kirchner considerava seu amigo”, diz a carta.

Como era de se esperar com uma declaração incomum desse tipo vinda de um político, classe acostumada à hipocrisia ao tratar de suas relações, a frase explodiu nas redes sociais. Uma página no Facebook chamada “esta vieja es pero que el tuerto” foi criada e já tem mais de 4 mil adeptos. Do outro lado do Prata, kirchneristas reagiram com raiva. “Peor que el tuerto” virou uma expressão e muitos tuiteiros passaram a utilizá-la para descrever situações limites. “Tenho uma fome que #espeorqueeltuerto”, escreveu um deles.

Seguidamente Mujica expressa sua insatisfação com a relação com a Argentina. Em entrevista ao Fantástico há algumas semanas, ele disse que “é preciso ter paciência diplomática” para negociar com Cristina Kirchner. Quando conversava com o prefeito, ele falava justamente sobre isso. Dizia que sempre tem que falar primeiro com Dilma para conseguir alguma coisa da Argentina.
No início do mês – não custa lembrar – quando Hugo Chávez morreu, Cristina Kirchner voou imediatamente para Caracas e, antes, passou em Montevidéu com o seu Tango 1 e deu uma carona para Pepe.

Mujica usou um fato real – a relação difícil com a Argentina – para fazer uma piada e, como toda a piada, nada politicamente correta. Teve seu dia de Rafinha Bastos e foi punido por isso. Resta saber se o caso vai cair no esquecimento, ou se Pepe terá que fazer como o ex-presidente Jorge Batlle, que chamou os argentinos de “bando de ladrões” em 2002 e, depois, viajou a Buenos Aires para pedir desculpas. Batlle, inclusive, foi procurado por um jornalista do El Observador para comentar o deslize de Mujica e respondeu: “não posso falar porque estou rindo sem parar”.