sábado, 15 de junho de 2013

Repressão, imagens e redes sociais: a combinação explosiva que fortalece as mobilizações sociais

Muito já foi dito sobre os protestos contra o aumento da passagem em São Paulo – e que se repetem em várias cidades do Brasil – nos últimos dias. Talvez tudo já tenha sido citado pelo menos uma vez por algum militante atuante nas redes sociais ou por algum jornalista no exercício da profissão. Acredito que tenho pouco a agregar sobre o tema, mas o racionamento de caracteres do Twitter não tem permitido que eu me manifeste como gostaria. Por isso, fujo um pouco do tema desse blog para fazer algumas considerações, mesmo usando os mais condenáveis artifícios do texto jornalístico – como esse nariz de cera.

Na segunda-feira, dia 10, quando as manifestações de São Paulo ainda eram apenas obra de um pequeno grupo de vândalos, segundo a grande mídia, assisti em Porto Alegre a uma palestra brilhante do sociólogo espanhol Manuel Castells. Trata-se do principal estudioso sobre essa novidade que são os movimentos sociais que surgem com a ajuda da internet e ganham as ruas.

Tudo começou com os islandeses, revoltados com os efeitos da crise financeira de 2009. Nesse caso, o resultado foi a queda do governo e a elaboração de uma nova Constituição para o país com a ajuda dos mesmos manifestantes, via Twitter e Facebook. Depois apareceram os Indignados na Espanha que exportaram sua revolta para os Estados Unidos, onde nasceu o Occupy. Passaram alguns meses e explodiu a Primavera Árabe, começando pela Tunísia e se alastrando rapidamente. A Síria foi o único país onde o movimento falhou. A influência internacional e a reação violenta do governo contra um movimento que começou (acredite!) pacífico, transformaram a revolta síria em guerra civil. E, como disse Castells, no momento em que o movimento se torna violento, ele morre. Guerra civil e movimentos sociais não podem ocupar o mesmo espaço.


Castells apontou os vários pontos em comum entre todos esses movimentos. Há uma interação entre eles que é obra do mundo conectado no qual vivemos. Mesmo sem abrir um jornal ou sem ligar a TV, é possível saber o que está acontecendo do outro lado do mundo. Por vezes, sem o jornal ou a TV acabamos até sabendo mais.

Entre as várias semelhanças apontadas pelo sociólogo espanhol (que você pode ler aqui, na reportagem que escrevi para o Portal Terra), escolhi três: repressão (o fato), imagens (o registro) e redes sociais (o meio). O que aconteceu em São Paulo coincidentemente na mesma semana que Castells estava no Brasil comprovou todas, mas a força explosiva das imagens indignantes, a revolta causada pela repressão oficial ao movimento e o exaustivo uso das redes sociais para fugir da dependência da mídia tradicional são, para mim, os principais combustíveis do movimento.

Manuel Castells lembra que ainda vivemos na sociedade do medo. Fazer qualquer coisa contra o sistema é perigoso e desafiador. Por isso, na maior parte do tempo, ficamos acomodados. A única coisa que pode fazer com que as pessoas enfrentem esse medo é a revolta. E a revolta é gerada por situações que consideramos injustas, como a repressão, exposta nas imagens das agressões policiais sem justificativa. Se as autoridades quisessem que as manifestações não tomassem essa dimensão, teriam orientado seus agentes de segurança a apenas acompanhá-las. Não foi o que aconteceu. Houve repressão forte, desmedida, injustificável. Aqui cabe aquela metáfora culinária que diz que quando mais você bate, mas o bolo cresce. E é isso.



Na noite de quinta-feira, 13 de junho, a manifestação no centro de São Paulo mal tinha começado e já pipocavam imagens cada vez mais chocantes nas redes sociais. Quando a Polícia Militar passou a agir com violência desmedida contra qualquer um que estivesse à sua frente, as fotos compartilhadas via Twitter e Facebook se tornaram mais alarmantes. As que ilustram essa postagem são as mais fortes: logo abaixo, a repórter do jornal que no mesmo dia publicou um editorial incitando a polícia a retomar a avenida Paulista dos manifestantes apareceu com o olho direito destroçado por uma bala de borracha disparada por algum policial; acima, o casal que um dia antes deve ter comemorado o dia dos namorados é alvo da fúria de um PM sob o olhar atônito de fregueses de um bar ou restaurante; e, lá no topo, o flagrante da agressão gratuita contra um cinegrafista de alguma emissora de televisão. Essas imagens são o que motivaram a revolta cada vez maior que, a princípio, estava na internet ou nas conversas entre grupos de amigos, mas que, na próxima semana, estará nas ruas em manifestações que devem se agigantar.

Particularmente, o termo redes sociais ainda me soa estranho. É algo relativamente novo e, como tudo que é novidade, difícil de ser compreendido. Ao mesmo tempo em que Facebook e Twitter são o lar de piadas e agressões anônimas, também são uma força ainda não compreendida pela mídia tradicional e muito menos pela política e seus atores. Foi nesse ambiente social na internet, onde todo mundo tem voz e vez, que nasceram as mobilizações de São Paulo, da Islândia, da Tunísia, da Turquia, de Porto Alegre etc.

Castells fez questão de ressaltar durante sua fala que as redes sociais não isolam o cidadão, ao contrário do que provavelmente a sua mãe pensa quando manda você sair da frente do computador e “viver um pouco”. Elas reforçam e ampliam a sociabilidade humana de uma forma sem precedentes. Se as nossas mães só podiam organizar protestos pelo voto feminino com suas vizinhas, nós temos a possibilidade de interagir com qualquer pessoa em qualquer lugar do planeta.

Nossos pais e avós merecem todos os méritos por terem participado de grandes mobilizações sociais, como a luta contra a ditadura. Mas eles, a política tradicional e a grande mídia precisam tentar compreender que o mundo mudou e a forma de protestar também. O que não mudou e não mudará – assim espero – é a nossa capacidade de se revoltar e, a partir desse sentimento, exigir mudanças.

"Enquanto tivermos capacidade de indignação e de mobilização, poderemos ir para a prática". Com essa frase, Manuel Castells encerrou sua fala na palestra da última semana em Porto Alegre.

Castells sobre o movimento de São Paulo
Em São Paulo, no preciso momento de sua fala no Teatro Geo (11/06), a avenida Paulista era espaço de tensão entre a polícia militar e os manifestantes contra o aumento das passagens de ônibus. Questionado pelo público sobre o que estava acontecendo na cidade, Manuel Castells respondeu:

"Todos estes movimentos, como todos os movimentos sociais na história, são principalmente emocionais, não são pontualmente indicativos. Em São Paulo, não é sobre o transporte. Em algum momento, há um fato que traz à tona uma indignação maior. Por isso, meu livro se chama REDES de indignação e de esperança. O fato provoca a indignação e, então, ao sentirem a possibilidade de estarem juntos, ao sentirem que muitos que pensam o mesmo fora do quadro institucional, surge a esperança de fazer algo diferente. O quê? Não se sabe, mas seguramente não é o que está aí. Porque, fundamentalmente, os cidadãos do mundo não se sentem representados pelas instituições democráticas. Não é a velha história da democracia real, não. Eles são contra esta precisa prática democrática em que a classe política se apropria da representação, não presta contas em nenhum momento e justifica qualquer coisa em função dos interesses que servem ao Estado e à classe política, ou seja, os interesses econômicos, tecnológicos e culturais. Eles não respeitam os cidadãos. É esta a manifestação. É isso que os cidadãos sentem e pensam: que eles não são respeitados.

Então, quando há qualquer pretexto que possa unir uma reação coletiva, concentram-se todos os demais. É daí que surge a indicação de todos os motivos - o que cada pessoa sente a respeito da forma com que a sociedade em geral, sobretudo representada pelas instituições políticas, trata os cidadãos. Junto a isso, há algo a mais. Quando falo do espaço público, é o espaço em que se reúne o público, claro. Mas, atualmente, esse espaço é o físico, o urbano, e também o da internet, o ciberespaço. É a conjunção de ambos que cria o espaço autônomo. Porém, o espaço físico é extremamente importante, porque a capacidade do contato pessoal na grande metrópole está sendo negada constantemente. Há uma destituição sistemática do espaço público da cidade, que está sendo convertido em espaço comercial. Shopping centers não são espaços públicos, são espaços privados organizando a interação das pessoas em direção a funções comerciais e de consumo. Os cidadãos resistem a isso.

Veja que interessante é o caso da Praça Taksim e do Parque Gezi, em Istambul. Há meses, eles estão protestando contra a destruição do último parque no centro histórico da cidade, onde seria construído um shopping center, um complexo dedicado aos turistas, que nega aos jovens o espaço que poderiam ter para se relacionar com a natureza, para se reunir, para existir como cidadãos. Portanto, é a negação do direito básico à cidade. O direito, como disse Henri Lefebvre, de se reunir e ocupar um espaço sem ter que pagar, sem ter que consumir ou pedir permissão a autoridades. Por isso, tenta-se ultrapassar a lógica da liberdade na internet à liberdade no espaço urbano.

Eu não posso opinar diretamente sobre os movimentos que estão acontecendo neste momento aqui em São Paulo, mas há algumas características de tentar manifestar que a cidade é dos cidadãos. E este é o elemento fundamental em todas as manifestações que eu observei no mundo.

O que muda atualmente é que os cidadãos têm um instrumento próprio de informação, auto-organização e automobilização que não existia. Antes, se estavam descontentes, a única coisa que podiam fazer era ir diretamente para uma manifestação de massa organizada por partidos e sindicatos, que logo negociavam em nome das pessoas. Mas, agora, a capacidade de auto-organização é espontânea. Isso é novo e isso são as redes sociais. E o virtual sempre acaba no espaço público. Essa é a novidade. Sem depender das organizações, a sociedade tem a capacidade de se organizar, debater e intervir no espaço público."