segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Crise, saúde e sumiço alimentam teoria sobre possível renúncia de Cristina Kirchner

Sem luto: imagem da presidenta argentina em novembro, quando voltou ao governo após licença médica
Coisas muito estranhas estão acontecendo na Argentina. Juntando os fatos, a conclusão é que algo grande está para acontecer a qualquer momento na política do país. Envolve a presidenta Cristina Kirchner. Com saúde física e política abaladas, ninguém duvida que ela não termine o mandato.

Relutei em falar sobre o assunto, pois não sou adepto da teoria do caos e nem tenho talento para advogado do diabo. No entanto, diante do silêncio de toda a mídia internacional sobre a situação “rara” dos hermanos, atrevo-me a palpitar.

Vamos aos fatos: há um ano, Cristina Kirchner anunciou que estava com câncer e precisava se submeter a uma cirurgia. Dias depois, os médicos descobriram que o problema na garganta da presidenta não era câncer.

Em outubro de 2013, CFK se licenciou da presidência por seis semanas. O motivo alegado: retirar um coágulo do cérebro, resultado de uma queda ocorrida meses antes. Em novembro, ela voltou à presidência e promoveu uma grande reforma, trocando nomes importantes do governo.

Dias depois, a presidenta saiu em férias. Mesmo em meio ao caos causado pela greve policial – que resultou em inúmeros saques e violência fora de controle – e aos problemas de geração de energia elétrica, CFK não interrompeu as férias para se dirigir à nação em uma usual cadeia nacional de rádio e televisão, como costumava fazer.

Na volta, abandonou parcialmente o luto pela morte do marido Néstor, ocorrida em 2010 (até então ela só vestia preto) e anunciou que não seria “candidata a nada” em 2015, quando o país passará por eleições presidenciais. Antes, chegou-se a cogitar que Cristina pretendia promover uma reforma na Constituição do país para poder concorrer a um terceiro mandato.

A presidenta argentina voltou ao trabalho na semana passada. Desde então, está mais reservada. A julgar pela agenda oficial, continuará assim - pelo menos dentro do país. Todos os anúncios importantes, como a compra de tomate brasileiro, por exemplo, foram feitos pelo novo chefe de gabinete, nomeado em novembro.

Nos bastidores, dizem que CFK está isolada dentro de um governo cheio de problemas. Este poderia ser o motivo do chá de sumiço: evitar associar sua imagem à crise iminente. Foi uma mudança muito brusca, pois antes da cirurgia para retirar o coágulo do cérebro, Cristina aparecia quase que semanalmente em rede nacional. Agora, dizem, só será vista uma vez por semana.

Pepe Mujica, presidente do Uruguai, está tentando, sem sucesso, falar pessoalmente com Cristina para reabrir o diálogo entre os dois países após a polêmica sobre a planta de celulose na fronteira. Ele espera encontrá-la ainda este mês na Venezuela ou em Cuba.

Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, adiou duas vezes a cúpula do Mercosul na qual passará a presidência para a Argentina. Primeiro, a reunião aconteceria em dezembro, quando Cristina ainda se recuperava, e passou para meados de janeiro. No início do ano, novo adiamento: desta vez a justificativa seria facilitar a vida da colega argentina, que faria apenas uma viagem para a reunião do Mercosul e para a cúpula da CELAC em Havana.

É impossível não fazer uma associação imediata com os meses que precederam a morte de Hugo Chávez. As informações desencontradas sobre a saúde do presidente, a continuidade do tratamento contra o câncer dias após a eleição (Cristina só resolveu operar o coágulo do cérebro depois das eleições legislativas no ano passado) e o sumiço são muito similares.

A saúde de Cristina é um capítulo à parte: sempre foi frágil. Não foram poucas as vezes que ela precisou ser atendida às pressas pelos médicos da Casa Rosada. Há alguns dias surgiu o boato que CFK estaria com problemas na fala. Nada confirmado. Nem desmentido.

Antes de me aventurar a fazer “previsões” sobre o futuro político da Argentina baseado em minhas impressões pessoais, conversei com algumas pessoas. Jornalistas, políticos e militantes próximos ao kirchnerismo. Para minha surpresa, todos compartilham a mesma preocupação. Sobre a possível renúncia, apenas um (jornalista) acha pouco provável.

Nos bastidores do kichnerismo fala-se em uma suposta mensagem secreta sobre a saúde da presidenta. As notícias não seriam nada animadoras. Não vou entrar em detalhes por se tratar de comentários sem confirmação oficial.

“A Argentina está no piloto automático”. Quem disse isso também pondera que janeiro e fevereiro são meses parados no país. Esse seria o álibi para Cristina reduzir o ritmo e cuidar mais da saúde. Depois, em março, tudo voltaria ao normal. É possível.

O certo é que não há nada certo. Quando a presidenta convocar a próxima cadeia nacional de rádio e televisão para um pronunciamento, tudo será esclarecido. Ou não.