quinta-feira, 12 de março de 2015

Cacerolazos que ganharam o mundo têm raízes na direita do Chile pré-Pinochet

Marcha das Panelas Vazias, Chile, 1971 (Foto: Jornal El Mercurio).
No início dos anos 70 foram as panelas batendo que anunciaram o futuro sombrio que aguardava o Chile com o posterior golpe de Estado de 1973 e a ditadura de Augusto Pinochet. Esses foram os primeiros registros do método de protesto conhecido como “cacerolazo”.

O ano era 1971 e Salvador Allende começava a expropriar terras para a reforma agrária, aumentava o poder do Estado na economia, tentava controlar os preços e aumentava os salários dos trabalhadores. As medidas “marxistas” desagradaram a classe média chilena e as primeiras batidas foram ouvidas no centro de Santiago. Qualquer semelhança com a atual “luta contra o comunismo” pregada por alguns no Brasil pode não ser apenas uma coincidência...

No início foi um movimento espontâneo combinado entre vizinhos e amigos no boca-a-boca, mas não demorou muito para a oposição notar que o protesto tinha futuro. Assim, em 1º de dezembro de 1971 foi organizado, com apoio dos movimentos de direita Partido Democrata Cristão, Partido Nacional e Pátria e Liberdade, o primeiro grande cacerolazo da história: a Marcha de las Ollas Vacias (marcha das panelas vazias). O protesto teve grande cobertura da imprensa.

É de 1972 a irônica canção “Las ollitas”, da banda Quilapayún, que diz: "La derecha tiene dos ollitas / una chiquitita, otra grandecita. / La chiquitita se la acaba de comprar, esa la usa tan sólo pa' golpear"


Pouco menos de três anos depois, o Palácio La Moneda foi bombardeado em um golpe militar cinematográfico e o general Augusto Pinochet assumia a presidência, de onde só saiu 17 anos, 3.065 mortos ou desaparecidos e 40 mil perseguidos depois. 

Capa do Jornal El Mercurio do dia 1º de dezembro de 1971.
Capa do jornal argentino Clarín em 20 de dezembro de 2001.
Se o barulho das panelas prenunciou a assunção de Pinochet, não foi diferente com sua queda. Os opositores chilenos adotaram o método de protesto e passaram a fazer cacerolazos das sacadas de casa para escapar da forte repressão do regime nas ruas. O mesmo acontecia no Uruguai, que também vivia sob um regime ditatorial.

A Argentina foi a responsável por popularizar esse tipo de protesto nascido no Chile. Partidos e movimentos de esquerda realizaram o primeiro grande cacerolazo contra Carlos Menem em setembro 1996. As panelas voltaram a bater mais forte na crise de 2001 e causaram a renúncia do presidente Fernando de la Rúa.

Nos anos seguintes, cacerolazos foram realizados em diversos países. No Uruguai, o som das panelas foi ouvido em 2002 contra o último presidente de direita do país, Jorge Batlle. Na Venezuela, a classe média protestava da mesma forma contra Hugo Chávez.

Os argentinos usaram as panelas para protestar contra a presidenta Cristina Kirchner várias vezes nos últimos anos. O método foi copiado na Islândia (2009), na Espanha em (2010, 2011, 2012), no Canadá (2012), na Colômbia (2012) e, como todos sabem, no Brasil (2015!).